contextos

Plataforma dos Profissionais de Educação

Educar para a criatividade é perspectivar o futuro

Contributos da Filosofia para Crianças no desenvolvimento do potencial criativo

A criatividade representa uma das actividades mais características do ser humano e tem sido alvo de pesquisa científica por parte de investigadores da inteligência que sublinham a importância da actividade criativa na produção de pensamento, reflexão e análise crítica da realidade. Face ao actual mundo competitivo e dinâmico do mercado de trabalho, importa repensar o conceito de aprendizagem no sentido de formar cidadãos aptos a enfrentar os desafios do seu tempo e simultaneamente capazes de projectar o futuro e lidar com a incerteza.

Segundo Ibáñez, “temos que fazer de cada aluno, não só um repetidor do já feito/conhecimento, mas um criador de novas realidades. Quando o aluno rompe com a sua passividade e se entusiasma por algo novo, quando procura deixar a sua marca pessoal, quando se sente protagonista e criador ou recriador de algo novo, a escola dinamiza-se” (Ibáñez cit. por Tavares Martins, 2000). Dito de outro modo, mais do que transmitir uma informação completa a escola deve ter por missão ensinar as competências de pensamento necessárias a uma melhor utilização dessa mesma informação (Bono, 2003).

As instituições de educação, quer formais quer informais (particularmente a escola) encontram-se em posição privilegiada para dar o primeiro passo no processo de desenvolvimento do potencial criativo, em que a formação de professores, a concepção dos currículos, os recursos disponíveis e a atenção ao contexto, constituem factores relevantes. O pensamento reforçado na escola tem continuado a ser maioritariamente convergente e linear sendo descuradas curricularmente outras componentes da cognição inerentes ao potencial criativo, tais como a iniciativa, a independência de pensamento, a autoconfiança, a persistência, flexibilidade e auto-determinação. Desde o nível básico de escolaridade os alunos aprendem que para uma determinada questão existe apenas uma resposta correcta, não deixando qualquer margem para o desenvolvimento do potencial criativo.

Nas últimas décadas, uma das alternativas de mudança de paradigma educacional centra-se no programa de Filosofia para Crianças, de Matthew Lipman, cujo principal objectivo consiste em: “(…) libertar os alunos do pensamento acrítico, mecânico e inconsequente (…)” (Rolla, 2004). Lipman inspirou-se entre outros autores, em Dewey que considerava como finalidade primordial do acto educativo, “ajudar os alunos a pensar” e em Herbert Mead que demonstrou ser possível utilizar os interesses sociais e comunitários da criança para fins educativos (Rolla, 2004).

Igualmente merece destaque a perspectiva de Edward de Bono acerca da educação como uma preparação para a vida num mundo globalizado que exige mais criatividade e inovação, em que “Precisamos de pensar para usar ainda melhor a informação que está igualmente disponível para os nossos concorrentes (De Bono, 2003). De Bono demonstrou ser possível ensinar directamente as competências do pensamento e foi pioneiro no método do pensamento lateral, dos Seis Chapéus do Pensamento.

Citando John Seely Brown, um visionário do mundo dos negócios, no mundo de amanhã diremos “Eu crio, logo existo” (Gardner, 2008), o que significa a emergente necessidade cada vez mais evidente de um ensino para o desenvolvimento da criatividade.

Referências Bibliográficas

TAVARES MARTINS, V.M. (2000) Para uma Pedagogia da Criatividade. Porto: ASA

BONO, E. de (2003) Ensine os seus Filhos a Pensar. Cascais: Pergaminho

ROLLA, M.N. (1957) Filosofia para Crianças. Porto: Porto Editora

GARDNER, H (2008) Cinco Mentes para o Futuro: As Capacidades que pode conquistar e desenvolver para ter sucesso. Lisboa: Actual

O Projecto de Filosofia para Crianças:

Filosofia, Criatividade e Meia Dúzia de Chapéus às Cores.”

Joana Sousa, licenciada em Filosofia, certificada em Filosofia para Crianças e no método Six Thinking Hats é uma das mais destacadas especialistas em Filosofia para Crianças, no nosso país. Mentora do projecto Filosofia, Criatividade e Meia Dúzia de Chapéus às Cores tem orientado pais e profissionais de educação na arte de desenvolver o pensamento criativo nas crianças, seguindo os pressupostos teóricos de Edward de Bono, autor do método Six Thinking Hats e da afirmação: “A criatividade não é uma dádiva mística. Podemos treiná-la”.

Tendo o ano de 2009 sido o “Ano Europeu da Criatividade e Inovação” quisemos dar a conhecer o projecto “Filosofia, Criatividade e Meia Dúzia de Chapéus às Cores assim como a sua fundadora e responsável pela difusão do método do “pensamento paralelo”, junto de adultos e crianças em workshops e ateliers.

Entrevista a Joana Sousa

Mara Mota (MM)Como surgiu o interesse pela filosofia para crianças e em especial pela linha de pensamento e intervenção de Edward de Bono?

Joana Sousa (JS)Tomei conhecimento da Filosofia para Crianças a propósito do projecto de investigação que desenvolvi no âmbito de uma pós graduação em consultoria. Descobri na altura que existia um «movimento» de novas práticas filosóficas, na qual se incluiam a consultoria filosófica (também designado por aconselhamento – counseliing) e a filosofia para crianças (FpC). Já os seis chapéus do pensamento do Edward de Bono foram-me introduzidos no âmbito dos Recursos Humanos; e foi com a leitura do livro «Ensine os seus filhos a pensar» que percebi que a proposta de Edward de Bono, ainda que muito utilizada nas empresas e organizações, apresenta uma proposta educativa de base muitíssimo interessante e com mais valias. Fui procurando formação e certificação nestas duas áreas e em 2008 constitui o projecto «Filosofia para Crianças, Criatividade & Meia Dúzia de Chapéus às Cores».

MM – Em que consiste a proposta educativa dos Seis Chapéus do Pensamento de Edward de Bono?

JS - Trata-se de uma técnica que permite a organização do pensamento: cada chapéu tem uma cor, cada cor significa uma linha de pensamento.  Os seis chapéus podem funcionar como um «código» que me permite identificar em que  posíção se encontra a pessoa com quem falo. Permite que eu use o mesmo chapéu do outro e assim torne mais fácil e acessível o processo comunicativo. Com as crianças torna-se divertida a utilização da técnica (e dos próprios chapéus) e facilmente interiorizam as cores e os significados.

MM – De que forma a filosofia para crianças pode facilitar a aprendizagem em qualquer disciplina ou área educativa?

JS - No meu entender, a Filosofia para Crianças (FpC) consiste numa prática de competências do pensar. Costumo usar a imagem do ginásio: nas sessões de FpC temos oportunidade de treinar os músculos do pensamento, questionando, reflectindo em grupo e assumindo posições. O motivo desse  «treino» pode ser um texto, uma imagem, um exercício de pensamento crítico ou criativo; os recursos podem ser diversos, pois o importante é o processo de pensamento que ocorre em grupo. Mais importante do que os resultados dos ateliers (um desenho e uma frase, por exº) é o observar o modo como as crianças descobrem que «trabalhar com a mente é divertido». Dado que o pensar é algo que nos é intrínseco, considero que estes «trabalhos do pensar» permitem uma agilidade de e destreza na aprendizagem de qualquer outra disciplina; pois em todas elas utilizamos a capacidade de pensar.

MM – Actualmente a sociedade exige cada vez mais cidadãos participativos capazes de aprender ao longo da vida, num mundo em acelerada transformação. Em que medida poderia a filosofia contribuir para a aquisição de competências no aprender a aprender?

JS - A mais valia da FpC é a possibilidade de colocar em prática as competências do pensamento crítico, criativo e cuidativo. Estas são dimensões apontadas pelo «pai» da FpC, Mathew Lipman.

Conceptualizar, problematizar, criar, ouvir o outro, ter a capacidade de esperar pela sua vez, tomar decisão, mudar de ideia – a FpC pode proporcionar isso mesmo. E estas competências não são únicas e exclusivas da Filosofia; são transversais aos vários domíninos do ser humano – como a aprendizagem.

Um dos meus alunos escreveu o seguinte: «a Filosofia é aprender a pensar; faz-nos pensar sobre a Vida, porque a Vida é Filosofia». (Guilherme, 13 anos). Proponho que os leitores pensem sobre esta frase de e com ela procurem responder à pergunta – afinal, é assim que trabalhamos em Filosofia: investigamos as questões que nos «incomodam». Mais do que oferecermos respostas, em Filosofia promove-se a capacidade de investigação. Queres saber? Pergunta! – é o mote das sessões de FpC. E isso contribui para o aprender a aprender?  Sim!

Temas: ,

Deixe um comentário