Existe expressão dramática na ludoteca?
“Quando uma criança embala a sua boneca fingindo ser a mãe, quando diz que é um avião e «voa» de braços abertos e fazendo com a boca os ruídos do «motor», quando diz que é um soldado, um leão, um astronauta…esta criança não está a fingir, representando para um público, desempenhando um papel de natureza teatral. Ela está a jogar, a efectuar uma acção lúdica apenas pelo prazer que isso lhe dá, pela satisfação em expressar por este modo as suas emoções, pelos sentimentos de alegria e de felicidade que sente na realização deste acto em si” (Sousa, 2003, p.22).
Este exemplo pode muito bem ilustrar uma situação vivida num espaço de uma ludoteca. O espaço lúdico que uma ludoteca oferece às crianças está intimamente ligado com o jogo dramático. Uma criança, ao brincar espontaneamente em espaço livre, utilizando os materiais existentes ou não, imagina situações “reais”. Essas situações imaginadas, espontâneas e criadas no momento, coadunam na expressividade da criança, nos diálogos que elabora, nas relações que estabelece com os materiais existentes, nas brincadeiras que, no fundo, desenvolve. “O Jogo dramático espontâneo é uma constante nos espaços lúdicos” (Martinho, 1999, p. 24). Penso que muitos adultos ainda vêem a brincadeira como um tempo em que a criança simplesmente brinca. No entanto, a criança, nesses momentos, para além de brincar com prazer, está a aprender, porque enquanto brinca espontaneamente com os amigos, com os bonecos, com os carros, etc., ela encontra-se num processo de desenvolvimento da sua expressividade corporal, sensorial, de linguagem, e até pessoal e social. A autora Saraiva, no artigo que escreveu sobre Ludotecas, sublinhou a ideia de João Amado e Leonor Santos (1992) quanto à principal função de uma Ludoteca que “é a de oferecer às crianças a possibilidade de se exprimir e de criar através de jogos e brincadeiras” (1999, p. 27). Ao interagirem num qualquer jogo, as crianças comunicam uma com as outras, atribuem um tema ao jogo, assumem papéis, estabelecem regras, arranjam adereços, organizam o espaço para brincar, imaginam os enlaces para a brincadeira … No fundo, estão a realizar jogo dramático, que se trata “portanto, de uma actividade lúdica, que é própria e natural na criança, surgindo espontaneamente e através da qual ela pode, livremente, expressar os seus mais íntimos sentimentos, dar ampla vazão à sua imaginação criativa, desenvolver o seu raciocínio prático, desempenhar no faz-de-conta os mais diversos papéis sociais e usar o seu corpo nas mais diferentes qualidades de movimento” (Sousa, 2003, p.32). Numa ludoteca tudo isso é possível!
De acordo com o tema do presente artigo, foi realizada uma breve entrevista a uma técnica, Celina Oliveira, responsável pela coordenação de uma Ludoteca. A ideia era a de fundamentar o texto aqui apresentado com uma realidade conhecida. Tendo, a entrevista, como objectivos perceber o género de actividades que podem ser dinamizadas numa ludoteca; identificar indícios de actividades relativos à área da expressão dramática; e saber se a expressão dramática é privilegiada pela coordenadora da ludoteca. Eis o resultado.
Como surgiu a oportunidade de coordenares uma Ludoteca?
Celina Oliveira: A oportunidade de coordenar uma Ludoteca surgiu no final do estágio curricular numa empresa de eventos e serviços educativo.
Quais os desafios que na altura te pareceram mais aliciantes?
CO: Enquanto profissional de educação, este projecto foi um grande desafio. Mensalmente tinha a meu encargo um conjunto de tarefas: planificação das actividades, elaboração dos formulários de actividade, organização da escala de serviço, monitorização e avaliação das actividades, elaboração de relatórios mensais, entre outras funções. Uma oportunidade de aplicar todos os conhecimentos adquiridos até ao momento. O que mais me aliciou foi o facto de ter a possibilidade de planificar as actividades e poder executar algumas delas com as crianças. Este projecto permitiu a oportunidade de concretizar as actividades com as crianças, disponibilizar ajuda e companhia de que estas precisam para brincar e jogar. Sem qualquer dúvida que se tratou de um projecto muito envolvente, e que me desenvolveu competências, enquanto profissional, que anteriormente nunca foi possibilitado durante o percurso académico.
Como coordenadora da ludoteca, que tipo de actividades é mais frequente preparares para as crianças?
CO: As actividades planificadas pretendem contribuir para o desenvolvimento imaginativo, criativo e social das crianças. Tento sobretudo proporcionar às crianças jogos e actividades de acordo com os seus gostos e aptidões. Mas as actividades incidem sobretudo sobre expressão plástica e trabalhos manuais. Contudo, entendo que apesar de existir uma planificação de actividades, deverá existir a possibilidade da criança brincar livremente (sem imposições), podendo utilizar ou não jogos e brinquedos para esse fim. A oportunidade de a criança viver a sua ludicidade é o que é mais importante numa Ludoteca.
De entre os materiais existentes na ludoteca, consideras que os espaços cozinha, quarto, guarda-roupa são importantes para uma aprendizagem significativa das crianças que frequentam a ludoteca? As improvisações e as explorações que as crianças fazem desse tipo de materiais são importantes para o seu desenvolvimento?
CO: Sim, as Ludotecas são instituições recreativas, que devem ser especialmente pensadas para as crianças, tendo como primeira função o desenvolvimento da personalidade da criança, através do jogo e do brinquedo. As improvisações e a exploração de diferentes contextos e materiais funcionam como ferramenta lúdica no processo de ensino aprendizagem, de forma a envolver as crianças de uma maneira muito eficaz. Este envolvimento permite a criança, através da brincadeira, conhecer o mundo que a rodeia e simular situações que ela observa e vivência no seu dia-a-dia. Estas improvisações possibilitam de igual modo a socialização entre as restantes crianças.
No teu ponto de vista, a ludoteca tem espaço para haver a expressão dramática? De que forma?
CO: Sim, sem qualquer dúvida. Considero que deveria de existir ocasionalmente a animação de um conto, a dramatização de um texto, na medida em que estas são actividades fundamentais na formação da pessoa, enquanto cidadão informado, crítico e participativo.
Obrigada à Celina Oliveira pelo contributo que deu a este artigo.
Referências Bibliográficas:
Martinho, H. (1999). O jogo dramático na Ludoteca. Cadernos de Educação de Infância, 51, p. 24-25.
Saraiva, Mª. M. (1999). Ludotecas. Cadernos de Educação de Infância, 51, p.26-30.
Sousa, A. B. (2003). Educação pela arte e artes na educação. Lisboa: Instituto Piaget.


